A desencarnação e a pós-desencarnação

Ao perceber o perigo a que se expôs na estrutura subterrânea para onde o seu vizinho a aliciou, Susie Salmon precipita-se desesperadamente para a saída.
Vemo-la correr em direcção a casa, enquanto o pai, angustiado, sai à rua com uma foto para saber se alguém a reconhece e a viu algures. Susie ouve-o e, depois, consegue vê-lo. Grita por ele, mas a paisagem esfuma-se. Susie encontra-se no mesmo local sem se encontrar exactamente no mesmo local. Vê as ruas e os edifícios, menos as pessoas, que desaparecem. Perdida, não sabe o que está a acontecer.
Em casa, a mãe fornece todas as informações à polícia. Susie ouve-a, mas não se consegue fazer ouvir. Susie vê-a, mas não se consegue fazer ver.
Por uma porta, cujas frestas deixam escapar uma luz intensa, a menina entra num compartimento onde as vibrações negativas não se coadunam com a luminosidade. Perante a lama e as roupas ensaguentadas que se espalham pelo chão, a sua pulseira (creio que de Pandora) pendurada na torneira do lavatório e o homem que se banha, exausto, Susie, aterrorizada, compreende, finalmente, o que lhe aconteceu. Soltando um grito de recusa, desfaz-se em luz e é transportada para um outro mundo.
Visto do Céu contempla a vida para além da vida, a sobrevivência do indivíduo, isto é, do espírito à morte da matéria – uma realidade a que se alude ao longo da história da humanidade e que se tornou alvo de estudo cinetífico a partir da segunda metade do século XIX.
O momento da desencarnação, isto é, o momento em que o espírito se liberta do corpo físico é um tema amplamente explorado na literatura espírita e apresentado de forma muito clara e concisa na segunda parte d’ O Livro dos Espíritos. É este o livro que tomarei como apoio ao pensamento que aqui procurarei desenvolver.
As respostas às perguntas 163 e 164 explicam o estado de confusão em que Susie se encontra antes de perceber que desencarnou como um estado de perturbação por que passam os espíritos quando se libertam do corpo. Esse estado, durante o qual o indivíduo toma consciência de si mesmo, pode ser mais ou menos longo, consoante o grau de apego da pessoa à matéria. Allan Kardec, nos seus comentários às respostas dos espíritos, afirma:
Por ocasião da morte, tudo, a princípio, é confuso. De algum tempo precisa a alma para entrar no conhecimento de si mesma. Ela se acha como que aturdida, no estado de uma pessoa que despertou de profundo sono e procura orientar-se sobre a sua situação.
As forças vitais de Susie não se extinguiram de forma gradual, de forma a permitir uma passagem mais preparada e, por isso, mais suave. Susie teve uma morte violenta e, nessas circunstâncias, o despreendimento das impressões materiais torna-se mais moroso, assim como o seu estado de perturbação. Atentemos a Kardec:
Nos casos de morte violenta, por suicídio, suplício, acidente, apoplexia, ferimentos, etc., o Espírito fica surpreendido, espantado e não acredita estar morto. Obstinadamente sustenta que não o está. No entanto, vê o seu próprio corpo, reconhece que esse corpo é seu, mas não compreende que se ache separado dele. Acerca-se das pessoas a quem estima, fala-lhes e não percebe por que elas não o ouvem. Semelhante ilusão se prolonga até ao completo desprendimento do perispírito. Só então o Espírito se reconhece como tal e compreende que não pertence mais ao número dos vivos.
Um dos motivos que explicam a ilusão é o facto de o espírito manter as percepçõs que possuía quando encarnado e de confundir o seu perispírito com o corpo físico que lhe serviu de habitáculo. Em tudo são semelhantes, mas a matéria de que se compõem diferem: no primeiro é rarefeita, no segundo grosseira e compacta. Kardec explica:
Surpreendido de improviso pela morte, o Espírito fica atordoado com a brusca mudança que nele se operou; considera ainda a morte como sinônimo de destruição, de aniquilamento.Ora, porque pensa, vê, ouve, tem a sensação de não estar morto. Mais lhe aumenta a ilusão o fato de se ver com um corpo semelhante, na forma, ao precedente, mas cuja natureza etérea ainda não teve tempo de estudar. Julga-o sólido e compacto como o primeiro e, quando se lhe chama a atenção para esse ponto, admira-se de não poder palpá-lo.
Enquanto não se desprende do corpo físico, o perispírito absorve as sensações que a matéria lhe pode causar. A ligação estabelece-se pelo pensamento comandado pelas emoções. Assim, embora resulte de uma ilusão, o espírito toma como realidade as sensações que lhe chegam pelo corpo.
Quando Susie, no plano espiritual, atravessa o campo que a separa de Ray, o seu amado, vê-se subitamente submergir em águas pantanosas, numa paisagem semelhante àquela por onde, nesse preciso momento, no plano físico, o seu assassino conduz o automóvel para atirar à agua a pulseira da menina que o poderia incriminar. O seu perispírito está ainda sensível às impressões que absorve do seu corpo e de tudo o que a ele o liga.
Outro aspecto a considerar no momento da desencarnação e nos primeiros tempos do estado de perturbação de Susie, é o facto de ela se encontrar absolutamente sozinha. Segundo os testemunhos recolhidos entre desencarnados e pessoas que tiveram uma EQM (Experiência de Quase-Morte), sabe-se que os amigos e os familiares que já estão no plano espiritual vêm ao encontro do recém-desencarnado, ajudando-o a desenvencilhar-se dos liames que o unem ao corpo e a adaptar-se à sua nova situação. A própria desencarnação é efectuada com a ajuda de uma equipa espiritual. Os espíritos que tiveram uma conduta aceitável no que respeita às leis divinas não são privados de tão simpáticas companhias. N’ O Livro dos Espíritos podemos ler as seguintes passagens:
160. O Espírito se encontra imediatamente com os que conheceu na Terra e que morreram antes dele?
“Sim, conforme à afeição que lhes votava e a que eles lhe consagravam. Muitas vezes aqueles seus conhecidos o vêm receber à entrada do mundo dos Espíritos e o ajudam a desligar-se das faixas da matéria. Encontra-se também com muitos dos que conheceu e perdeu de vista durante a sua vida.”
289. Nossos parentes e amigos costumam vir-nos ao encontro quando deixamos a Terra?
“Sim, os Espíritos vão ao encontro da alma a quem são afeiçoados. Felicitam-na, como se regressasse de uma viagem, por haver escapado aos perigos da estrada, e ajudam-na a desprender-se dos liames corporais. É uma graça concedida aos bons Espíritos o lhes virem ao encontro os que os amam, ao passo que aquele que se acha maculado permanece em insulamento, ou só tem a rodeá-lo os que lhe são semelhantes. É uma punição.”
Afinal, estar sozinho numa situação desconhecida é sempre desconfortável. Susie era uma boa menina e, perante o que conheço da Doutrina Espírita, não se me afigura verosímil que ela tivesse ficado durante tanto tempo entregue a si mesma, sem uma palavra apaziguadora, de conforto e de encorajamento.
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