O Céu e os mundos transitórios

Quando Susie Salmon serena e gradualmente se vai adaptando à sua nova condição, conhece Holly, uma menina desencarnada, saberemos mais tarde que em circunstâncias idênticas às da protagonista e nas mãos do mesmo assassino.
Confrontada com uma paisagem paradisíaca, Susie pergunta à nova amiga se está no Céu. Holly explica que, apesar da beleza do lugar onde se encontram, existe um outro local que está para além do descritível, onde o tempo e as memórias deixam de fazer sentido. Esse lugar será, sim, o Céu, cujo acesso é representado por uma árvore magnífica.
Holly explica que o caminho é sempre em frente, referindo-se essencialmente ao tempo. Por outras palavras, o caminho é o futuro e, porque o tempo se caracteriza pela sua volatilidade e pela sua inexorabilidade, não se pode voltar atrás. O regresso ao passado é impossível. Assim, há apenas duas possibilidades: fixar-se na ilusão do que já não volta e, assim, estagnar ou avançar rumo à felicidade. Cada um toma as suas opções e, apesar do convite e do incentivo de Holly, a decisão final acerca do caminho que quer tomar é apenas e somente de Susie.
Muito embora sinta o apelo do Céu, a protagonista ainda se encontra muito ligada ao que deixou para trás. Os laços de amor em relação à família e a Ray, o seu amado, sã0, paradoxalmente, laços que a aprisionam ao local onde se encontra. Para além desses, há também os sentimentos de ódio e o desejo de vingança que a mantêm ligada ao seu assassino.
Assim, porque não se sente preparada por achar que há coisas por resolver, Susie adia a entrada no paraíso e retoma o caminho inverso, espacialmente representado para trás. A árvore frondosa perde as folhas que são afinal pássaros que a acompanham na inversão da marcha. A simbologia é assaz forte e aqui se enfatiza que o acesso ao Céu resulta da reunião de várias condições que acompanham cada indivíduo e não depende de mais ninguém. A chave encontra-se com Susie como com cada um de nós.
Susie fica então no seu mundo, por ela criado e feito à sua medida. É um mundo feliz, muito adolescente e repleto de riquezas provenientes da imaginação e da vontade da menina. No entanto, a sombra do passado é intermitente e cria espaços de esterilidade, de desolação e de angústia. O irmão mais novo de Susie explica à avó: “Avó, a Susie está no mundo intermédio.”
O que nos diz o Espiritismo sobre o Céu e, por oposição, o Inferno? Já aqui publicámos diversos textos que procuram desmistificar a tradicional ideia judaica-cristã e repor a essas duas palavras a sua dimensão alegórica. Atentando às respostas compiladas n’ O Livro dos Espíritos, percebemos que não representam nenhum lugar circunscrito. No que diz respeito ao Céu, a pergunta 1016 vai directa ao assunto:
1016. Em que sentido se deve entender a palavra céu?
“Julgas que seja um lugar, como os campos Elíseos dos antigos, onde todos os bons Espíritos estão promiscuamente aglomerados, sem outra preocupação que a de gozar, pela eternidade toda, de uma felicidade passiva? Não; é o espaço universal; são os planetas, as estrelas e todos os mundos superiores, onde os Espíritos gozam plenamente de suas faculdades, sem as tribulações da vida material, nem as angústias peculiares à inferioridade.”
Esta definição é posteriormente explorada num outro livro da Codificação Espírita, O Céu e o Inferno.
Os espíritos aglomeram-se pelas relações de simpatia e afinidade que estabelecem e mantêm entre si. As boas vibrações inerentes aos espíritos mais evoluídos aproximam-nos da realidade que a palavra “Céu” metaforiza e que, sem querer ser redutora, se concretiza num estado de felicidade e de perfeição, no qual o tempo e as memórias adquirem novos significados e novas proporções. A esse estado todos nós chegaremos um dia.
Susie opta por ficar num mundo intermédio ou, na expressão de Kardec, “mundo transitório”. Nesse seu mundo, coexistem dois planos: um mais material, mais próximo da Terra, onde se prendem as suas memórias e os seus afectos e outro mais etéreo onde a paisagem se modifica ao ritmo do pensamento, da vontade e da emoção. Susie encontra-se num mundo por ela mesma criado, ora consciente, ora inconscientemente.
Holly, que é sua amiga e que com ela estabeleceu elos de afinidade, aparece de vez em quando, mas como visita que, adolescente, se diverte com as criações de Susie ou como espectadora de um filme quando espreitam a Terra (se bem me lembro, há uma cena de Holly a comer pipocas e tudo, mas não tenho a certeza). O espectador percebe que Holly se encontra num estado de desprendimento superior ao de Susie, orientando a amiga e pacientemente por ela esperando para, juntas, entrarem no Céu.
Sobre os mundos transitórios, podemos encontrar uma breve elucidação n’ O Livro dos Espíritos, de que destaco as seguintes passagens:
234. Há, de fato, como já foi dito, mundos que servem de estações ou pontos de repouso aos Espíritos errantes?
“Sim, há mundos particularmente destinados aos seres errantes, mundos que lhes podem servir de habitação temporária, espécies de bivaques, de campos onde descansem de uma demasiado longa erraticidade, estado este sempre um tanto penoso. São, entre os outros mundos, posições intermédias, graduadas de acordo com a natureza dos Espíritos que a elas podem ter acesso e onde eles gozam de maior ou menor bem-estar.”
a) Os Espíritos que habitam esses mundos podem deixá-los livremente?
“Sim, os Espíritos que se encontram nesses mundos podem deixá-los, a fim de irem para onde devam ir. Figurai-os como bandos de aves que pousam numa ilha, para aí aguardarem que se lhes refaçam as forças, a fim de seguirem seu destino.”
Nesses mundo transitórios, o espírito não estagna completamente. De forma mais ou menos vagarosa, a aprendizagem também se efectua e é condição sine qua non para que o espírito possa progredir e rumar a um local melhor, que é como quem diz alterar a sua forma de viver e perspectivar as coisas.
Todos nós, porque não somos perfeitos, quando desencarnarmos ficaremos num estado transitório que a nossa imaginação, eivada de memórias e da necessidade de concretização, transformará em mundo. Ainda é, para nós, inconcebível, a figuração da existência independente do conceito de espaço.
O mundo de Susie era pequenino e, quando ela estava bem, era muito maneirinho. Mar, luz, relva verde e com tudo o que a imaginação de uma adolescente pode criar.
O meu mundo será um mundo azulinho com gelado de chocolate. E o vosso?
(Continua)
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